Vivemos numa geração de crianças, adolescentes e por que não dizer até mesmo, de muitos adultos que vivem de mi-mi-mis. Seres que de crescidos só tem o tamanho, mas que no fundo continuam infantis. São eternas crianças, alguns não passam de bebês chorões, dependentes dos pais ou dos outros — as novas conexões que em algum momento de suas vidas estabelecem. Estamos sim, vivendo a cada dia mais, o crescimento do determinismo parental (FUREDI, Frank. Paranoid Parenting. Continuum: London, 2008. P.54.) — onde os pais acham que tem que, a todo e qualquer custo, evitar que seu filho(a) sofra qualquer tipo de frustração, dor ou sofrimento — e a minimização da promoção dos potenciais de recursos internos inerentes à criança, como o aprender lidar com os problemas, ter oportunidades para poder desenvolver a resiliência e assim, gradualmente amadurecer, ser e viver pleno. Contudo, sabemos que a resiliência só pode ser desenvolvida frente às adversidades, diante do enfrentamento das dificuldades da vida, da dor e do sofrimento. Todavia, ao privarmos alguém da dor, furtamos o mesmo do privilégio de viver o crescimento em áreas distintas de sua vida, o que acaba por repercutir em um grave problema no desenvolvimento de sua própria autonomia.
Percebemos que muitos pais, de modo inconsciente, é claro — pelo menos, espero pensar assim — impedem seus filhos da legítima autonomia e desenvolvimento. E isso se dá através de “pequenas” atitudes do dia a dia. Um exemplo clássico disso é quando os pais ficam a ajudar os filhos a se vestirem, ou a comerem, mesmo até muito tempo depois de sua capacidade potencial para fazê-lo.
O grande problema surge quando estas crianças crescem e então, a dependência que estes filhos tinham antes dos pais, acabam só por transferir para seus parceiros, colegas/professores, líderes no trabalho ou na universidade. Na ânsia — inconsciente, como diria Winnicott — de serem importantes para seus filhos, ficam a vestir a seus filhos, comprar suas roupas; a dar de comer na boca até a segunda infância e alguns até mesmo na puberdade. Pode parecer ridículo o que falo e quem sabe para você, até uma realidade muito longínqua, porém vemos inúmeros casos assim no Brasil, no mundo e também em Bento Gonçalves. E, a desculpa que geralmente ouvimos é mais ou menos neste tom:
“Ah, sabe como é..Se eu não der, ele(a) não come!”
Queridos pais, é necessária a seguinte compreensão: a dor do crescimento, do enfrentamento das adversidades, não é em absoluto, um inimigo. Pelo contrário, pode ser um grande aliado. E agora, sou eu quem lhe pergunto:
- Se eu não sei administrar a dor de uma simples queda da bicicleta, como poderei enfrentar os tombos que ainda levarei na vida? Se eu não sei julgar, que roupa que neste dia e com este clima é melhor usar, como poderei depois tomar decisões mais complexas?
A vulnerabilidade exacerbada incutida nas crianças pela conduta e crença dos pais, tem provocado essa languidez e frouxidão que presenciamos hoje. Crianças que choram por tudo, que ao mesmo tempo, por mais que ganhem tudo que pedem, lhes falta gratidão e contentamento. Nossas crianças nunca foram tão infelizes. Nossos adolescentes em nenhum momento antes, se encontraram tão insatisfeitos. Qualquer coisa lhes tira o ânimo, quando não muito, até mesmo a vontade de viver.
Diante disso, pais fortes que são firmes na criação de seus filhos, que compreendem que a frustração e a dor fazem parte da vida, ajudam no desenvolvimento de filhos também fortes e firmes para enfrentar as tempestades que virão, que não vão naufragar em meio às adversidades. E então, sim, esses pais poderão se orgulhar dos filhos que criaram, cidadãos conscientes, que por sua vez, terão também a oportunidade de contribuir para a construção de uma sociedade justa, forte e resiliente.


